Pedras Rolantes

"A vida é aquilo que acontece enquanto estás demasiado ocupado a fazer outros planos" John Lennon



"You can't always get what you want, but sometimes, yeah just sometimes, you can get what you need" The Rolling Stones



segunda-feira, março 23, 2009

God Bless St Joseph (e St Paddy já agora...)

Father to Son / Cat Stevens @ Youtube


Shame on me, não ando atrasada nos blogues, ando a correr atrás do comboio que já partiu. Tenho demasiada necessidade de escrever, não posso dizer que é sempre atraso, se bem que alguma vez podia acertar no dia. Portanto falo de 2 dias que já passaram.
St Patrick, padroeiro da Irlanda, porque 1) é romano de origem; 2) é patrono dos celtas e de tudo o que a eles está associado, nomeadamente música, cultura, kilts & todo o tipo de gaitas de foles; 3) o nome, obviamente inspirado e muito bem escolhido (à falta de uma santa ou rainha homónima que eu conheça). O seu dia comemorou-se a 17 de Março, quase a entrar no equinócio. Não me lembro exactamente do que fiz, mas estava uma canícula desgraçada, isso é certo.
S. José, mais universal ainda, dia 19, ie dia do Pai em Portugal. Pronto, pode-se aplicar, o dia do pai é todos os dias, o dia da mãe, o dia dos filhos, o dia dos avós, o Natal também, o dia da mulher, e já agora, porque não, o dia do homem. Todos os dias.
Mas que os Pais caminhem para o dia do pai, que mal há? Desde pequena que na escola fazíamos sempre qualquer coisa para o dia do pai, lembro-me de uma gravata de cartolina cortada e desenhada com lápis de cor, com um "bolso" para um pente. É querido, era giro. Dei-a à minha Mãe, no dia do Pai, e costumo sempre dar-lhe qualquer coisa no dia do Pai, desde pequena (obviamente que mais no dia da Mãe).
Mas esses dias (um pouco ao contrário do S. Valentim, que acordou tarde), dizem-me sempre qualquer coisa; não é uma alta prenda, mas uma lembrança especial, pronto. Alguém se lembra ocasionalmente que S. José também foi pai? Não estou a ser herética. Não somos todos "filhos de Deus"? Logo somos irmãos menos dotados de Jesus. Jesus teve um pai na terra. Não acredito na concepção espontânea, mas na imaculada concepção. Todas as concepções são imaculadas, desde que os respectivos e futuros pai e mãe o desejem. Logo S. José teve uma carga de trabalhos, e depois as escrituras vieram tirar-lhe o pouco protagonismo que lhe restava.
São José era carpinteiro, dizem os antigos, logo ensinou a sua arte ao seu filho. Ao menos no presépio e nas representações da Sagrada Família, S. José está lá. Por isso acho que todos os Pais, Mães, crianças do mundo deveriam ter um dia em que todos se lembrassem da sua "posição hierárquica" de uma maneira especial, apenas isso, uma lembrança de amor carinho e respeito (e nisto incluo, figuras paternais que não sejam os pais biológicos e maternais que não as mães, porque todos sabemos que há muitos "biológicos"-está na moda, pronto- que não merecem referência), que não impeça os outros dias de serem Todos os dias.
E isto porquê? Eu julgava que o dia do Pai (e dia da Mãe) fosse muito celebrado. Após conversa com amostras não aleatórias da população nos dias 18 e 19, ouvi "quando", "em que dia?", "não sabia", "não fazemos nada". Já não digo nada, mas parece-me que é triste.
Por isso, uns diazinhos atrasados, noblesse oblige, uma homenagem aos pais decentes que há por aí (espero também não me enganar redondamente ao achar que ainda haverá bastantes). Aliás, descobri que o Cat Stevens até não era desengraçado circa meu nascimento. Agora está balofo e velho. Parece que o Islão não o ajudou lá muito.
Acho que tenho uma data de canções dele (músicas) no meu subconsciente desde pequena; são simples e bonitas. (Re) descobri-as algum tempo depois, num Algarve que ainda não era Allgarve, portanto também já um pouco distante. Em Father to Son, que devia ser conhecida universal e transversalmente, há uma conversa entre gerações. É essa conversa que deve continuar.
(aparte: já não sei se há uma fase em que toda a gente no liceu começa a querer tocar guitarra; nos meus bons velhos tempos havia, circa 9º/10º anos. Independentemente da qualidade do som, os acordes mais arrancados eram, em 1988/89, Father to Son; that should mean something).

domingo, março 15, 2009

Nothing more

música: Clint Eastwood;
letra: Kyle Eastwood e Michael Stevens;
intérprete: Jamie Cullum

So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering
Gentle now
The tender breeze
Blows
Whispers through
My Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engine humms
And bitter dreams
Grow heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
It beats
A lonely rhythm
All night long
It beats
A lonely rhythm
All night long
Realign all
The stars
Above my head
Warning signs
Travel far
I drink instead
On my own
Oh,how I've known
The battle scars
And worn out beds
Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
A Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
Heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
These streets
Are old
They shine
With the things
I've known
And breaks
Through
The trees
Their sparkling
Your world
Is nothing more
Than all
The tiny things
You've left
Behind
So tenderly
Your story is
Nothing more
Than what you see
Or
What you've done
Or will become
Standing strong
Do you belong
In your skin
Just wondering
Gentle now
A tender breeze
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And bitter dreams
Grow
A heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
May I be
So bold and stay
I need someone
To hold
That shudders
My skin
Their sparkling
Your world
Is nothing more
Than all
The tiny things
You've left
Behind
So realign
All the stars
Above my head
Warning signs
Travel far
I drink instead
On my own
Oh
How i've known
The battle scars
And worn out beds
Gentle now
Tender breese
Blows
Whispers through
The Gran Torino
Whistling another
Tired song
Engines humm
And better dreams
Grow
Heart locked
In a Gran Torino
It beats
A lonely rhythm
All night long
It beats
A lonely rhythm
All night long
It beats
A lonely rhythm
All night long

Too many words? (1.2)

Um poema devia ser palpável e mudo

Como um fruto arredondado,

Estúpido

Como medalhões para o polegar,

Silencioso como a pedra muito usada

do peitoril da janela onde cresceu o musgo -

Um poema não devia ter palavras

como o vôo dos pássaros.


*


Um poema devia estar parado no tempo

enquanto a lua trepa,

Deixando, como a lua liberta

rebento a rebento as árvores enroladas na noite,

Deixando, como a lua por detrás do inverno deixa,

memórias e memórias na mente -

Um poema devia estar parado no tempo,

enquanto a lua trepa.


*


Um poema devia ser igual a:

Não é verdade.

Por toda a história do sofrimento

uma entrada vazia e uma folha de àcer.

Pelo amor

a erva que se inclina e duas luzes acima do mar -

Um poema não devia significar

mas existir.

sexta-feira, março 13, 2009

Too many words? (1.1)

A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,
Dumb
As old medallions to the thumb,
Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown—
A poem should be wordless
As the flight of birds.
*
A poem should be motionless in time
As the moon climbs,
Leaving,as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,
Leaving, as the moon behind the winter leaves,
Memory by memory the mind—
A poem should be motionless in time
As the moon climbs.
*
A poem should be equal to:
Not true.
For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.
For love
The leaning grasses and two lights above the sea—
A poem should not mean
But be.
Ars Poetica
Archibald MacLeish

quarta-feira, março 11, 2009

onze

parece um buraco que olha o céu,
explodindo para o altíssimo
em surdina
Parece que passaram cinco anos. Não consigo desligar o comparativo.
Mas lembro-me menos. Tive que ver de manhã quantos anos tinham passado, não tinha a certeza. Lembro-me de ver colegas e enfermeiras/ enfermeiros espanhóis agarrados ao telemóvel e à TVE o dia inteiro. Colados. Não estavam tranquilos, mas não eram a face do medo. Não sei se haveria algum mesmo de Madrid. Um colega é de lá perto, perto de Toledo, o que não é bem a mesma coisa. Uma colega do País Basco, com um feitiozinho irritante, a quem eu chamava Etarra no gozo andava sorumbática, do tipo não olhem para mim que não fiz nada. E foi assim.
Não foi mediático, mas mudou até a Hola por mais de um número. Não dava para um filme mas morreram parece que 191 pessoas (contra mais de 2000...). É muita gente, mais que muitos acidentes de avião, feridos nem se contam, há hora de ponta, as bombas invadiram o metro, dia onze.
Onze como onze, onze antes das eleições, onze que podia ser ETA ou AlQaeda, o que interessa, é terrorismo. Espalhou o caos em Madrid, mas os nossos irmãos madrilenos, num acesso de civilidade que seria difícil imaginar deste lado da fronteira, organizaram-se ordeiramente em longas filas para dar sangue.
É estranho o meu distanciamento do caso, não por juízo de valores e não ser "emocionante qbp como pessoas a cair de altas torres apanhadas por aviões". Não, e gostava de me sentir tão madrilena como eles neste dia. Nunca estive em Madrid, nunca fui a Espanha sem ser a Badajoz, não tenho nada contra espanhóis, não nasci a 18 de Março. 11, oposto solar de 11, Setembro e Março em oposição. Virgem e Peixes, os que não se entendem, frente a frente.
No outro 11 senti-me agredida, tinha estado lá, gosto de aviões, gosto de Nova Iorque (embora suspeite que as minhas memórias e fotografias de sítios que deixaram de existiram, mais que o gozo da viagem tenham aumentado a nostalgia), percebo melhor inglês do que espanhol, pasme-se, não técnicos. Tão longe aqui tão perto, tão perto lá tão longe. Uma semana antes dos meus anos. Deve ser essa vontade de esganar o Bin Laden por procuração (ou quem quer que o tenha feito) por me ter estragado os anos, todos os anos, todos os Setembros, enquanto me lembrar.
Setembro é mês de lembranças (do Verão), Março é mês de esperança (da Primavera). O século 21 está para todos os medos. Evolução no terror foram os ataques na Índia.
Depois do onze. Porque o segundo onze ficará para sempre como segundo onze, aconteceu numa capital habituada a atentados, aconteceu no Al Andaluz, Ibéria, que já foi árabe, porque o modus operandi não encaixa, não me cheira tão facilmente a Al Qaeda, que também não tenho a certeza que não seja uma farsa.
Mas foi, como todos os atentados terroristas, planeado para o máximo impacto. À hora torpe de ir para o emprego da qual os civis inocentes que apanham sempre e em cheio não podiam escapar. Gente houve que perdeu braços e pernas, outros paraplégicos, outros com medo do metropolitano, é tão grande a lista do medo instalado pela qual alguns de nós estão prontos a abdicar de tantos direitos.
Hoje não consigo escrever um texto coerente sobre o assunto, concluo. Tenho um peso na cabeça e um trabalho do tamanho do mundo para fazer em menos horas que as necessárias. Tenho os olhos cansados apesar dos óculos de tanto olhar para o écran. Tudo tem brilho a mais. A televisão fala demais, há serial killers a mais. Este onze é pouco demais, o que acaba por ser uma benção, já que o outro é como se nascesse comigo em cada ano, quer queira, quer não.

segunda-feira, março 09, 2009

I hate the smell

Não posso não quero não vou. Há coisas que bastam e me fartam. Infelizmente são muitas. Só esta dava pano para muitas mangas.
A minha vizinha da frente /trás, conforme a perspectiva. Melhor dizendo, vizinha da frente da janela de trás, onde temos o estendal, porque o do terraço era bom para perder roupa e não para a secar. Tanta vez eu a pregar ou a tirar roupa e a vizinha, ondulados cabelos loiros à janela a fumar um cigarro.
No ano passado o padrão mudou. Passou-se um tempo sem a ver e depois passei a vê-la, janela fechada como jaula a olhar para fora, touca na cabeça sem cabelo. Mau, pensei eu, sabendo que mal olhei sabia que ela sabia que eu sabia o que ela tinha e andava a fazer. E assim continuou durante meses. E eu pensava "QUANDO, quando é que a quimio acaba?". Mais para o fim do ano, cabelo castanho começou a crescer.
Há duas semanas voltou a touca. Sem cabelo. Hoje à janela com a filha, fumava um cigarro. Desde quando as pessoas aprenderam a desistir? Aquele exemplo publico ao contrário chamado Fernanda Serrano é uma kamikaze que devia ser obrigada a abortar. Qual história de coragem. Tem 2 filhos e um prognóstico tão péssimo que é impossível descrever. E no entanto, depois de tanto tratamento que no mínimo pode ainda fazer muito mal a um feto, quanto mais ao resto. Responsabilidade em vida? Não há.
Os médicos, pela vida dos outros? Não têm. Introduzo o tema da eutanásia só para chatear, vai dar para muito. Aquela coisa chamada nosso 1º acto de dignidade fundamental. E o testamento de vida, existe? Como podemos saber a vontade do doente per os ou em procuração. Matêmo-los enquanto estão vivos, é da maneira que não sofrem.
Indigno-me. Há demasiadas coisas estúpidas sobre desinformação em Medicina a passarem à minha frente. Por exemplo, o debate sobre educação sexual. Professores de Matemática ? Educação para a saúde?
Precisamos de ser acordados e alfabetizados e civilizados. Todos. Antes disso.

Redol




É suposto a Editorial Caminho ter a obra completa de Alves Redol publicada. É suposto. A tradição já não é o que era. Alves Redol, se alguma vez passou do "já ouvir falar", voltou ao seu dormente destino. Por vezes, é Constantino, o das vacas e dos sonhos que o resgata nas livrarias. Mais nada.
A Europa-América e os seus livros de bolso avant la lettre publicaram as suas obras. E existem ainda como irredutíveis gauleses. Para o perceber tinha de o ler e foi graças à E-A e a Wook.pt que o encontrei. Para alguém que faleceu em 1969, acho injusto.
E tenho que fazer uma recensão. Pouco sabia do autor e do seu neo-realismo. E gostei, embora ele seja poeta com as crianças e duro com a realidade, mais do que propriamente justo. Tem uma profundidade documental que não é comum entre nós. E sabe descrever para além de escrever.
Por isso os romances que li, Gaibéus e Avieiros, são testemunhos documentais; passou à palavra o que se vivia, e muito bem. Em Avieiros há mais um esboço de personagem principal, uma avieira, o que foge ao epíteto de "romance viril" (ainda estou para descobrir o que torna um romance viril...), que me contenta mais o coração que as caras mergulhadas na massa anónima. Não gostei particularmente dos contos. Os romances parecem-me mais colecções de contos bem conseguidos do que os propriamente ditos.
Falta-me ler Barranco de Cegos, uma "ficção a sério", estilo saga. Cheira-me que não tendo a espontaneidade dos restantes não será tão baluarte. Está na interminável lista so many books so little time. reparei que a aldeia se chama Aldebarã, parece-me; teremos aqui uma ligação céltica e estrelar?
Para saga, contudo, tem para já uma coisa a seu favor. É mais pequeno que o Equador. Me basta. (e gostei do Equador).

brouhaha

Esta é mesmo só para.
Acabei de assistir a um excelente exercício de estilo.
Uma pessoa na televisão a dizer tudo o que lhe apetecia,
unredacted, unedited.
Mário Crespo e Medina Carreira.
Dois tiros no porta aviões.

Absolute estupida bacorada






É estilo Vicky Cristina Barcelona, juntem-se 3 palavras omissas e gatafunhe-se. Hoje vou-me queixar de várias coisas aos bocadinhos.
Agora e desde há muito tempo, a mercantilização dos livros tem sido uma coisa devastadora. Num único ano, em 34 que levo, não me lembro de tragédias assim. Vi duas vezes faltarem artigos de primeira necessidade nas prateleiras de supermercados (não de hiper, contanto), uma com a greve dos camionistas, outra agora pela "conjuntura". Mas livros, meu Deus, aos molhos, para comer, em todo o lado. Como Magalhães?
Nos hipers e na Fnac, cores, só cores. Ficamos a olhar, reduzidos a nossa expressão de bebés que só vêem manchas de cores. Esqueço-me do que ía lá comprar - que aliás, nunca têm. As cores, os títulos, as fotografias, os livros dos filmes baseados nos livros banalizam tudo. O CR7, o Fêcêpê.
Os Maias. Desculpe? 4,99€ só no Continente. Alves Redol. Quem? Europa América? Não trabalhamos com essa editora. Já experimentou lá em baixo, na Bertrand? Isto na Fnac do Colombo, alegadamente a maior do País.
Não pode ser. Não pode. Não. Ainda por cima mais cara, porque aproveitou para os 10% da praxe serem só para aderentes (ao cartão Fnac). Sim, eu sou. Há muito tempo. Tenho vergonha confesso.
DVDs, CDs, livros. Não compro livros de capa mole com preço superior a 20€. Não compro livros a retalho, ao metro, dê-me 5 quilos de Miguel Sousa Tavares sff. Ah, hoje já esgotou, MST não temos... Então pode ser um copinho de Aldeia Velha. Ou um tapete Margarida Rebelo Pinto (não a consigo visualizar a um nível que não seja debaixo dos meus pés) ou etc. Estrangeiros há muitos, mas não há.nada. Que preste. Obama obamaobama conjuntura. Estúpidos. Tanto. Que nós somos.
Os estrangeiros que não há encontro na amazon.uk a preços módicos. O último livro do Carl Sagan (meeeeestre!) sobre ciência e a procura de Deus - ele era agnóstico- que saiu em 2006 custa para cima de 30€, capa dura. Por acaso dos deuses, a Fnac tinha uns saldos estrangeiros. Capa dura, impecável, edição original americana 15€. Saí contentíssima e menos pobre. Será do subprime? Afinal, só tenho é que ler em inglês. Para mim, que é fácil, vou passar a poupar ainda mais. E o resto dos Portugueses, como vai ser com o inglês técnico? I wonder.
E os autores portugueses? Valhe-lhes essa editora non grata Europa América e o grupo Porto Editora, a quem por demais laureio. Qual Caminho, qual quê, enquanto desenham de novo as capas do Saramago, Alves Redol resvalou inteiramente para a EA. Alguém se lembra dos Gaibéus, daquele desenho na capa? Edição de 1972. Nessa altura, quando os livros nasciam,eram para todos.

quinta-feira, março 05, 2009

Be.Very.Afraid. parte 62

Sensação de que nada acontecerá

Mário Crespo
Está instalado no país um dorido sentimento de resignação de que nada vai acontecer nem no Freeport nem no BPN. Haverá cordeiros sacrificiais, mas que (para usar terminologia de offshore) estarão longe de ser os UBOs das fraudes. Estão longe de ser os Ultimate Benificiary Owners porque o sistema em Portugal nunca chega, nem parece querer chegar, aos verdadeiros beneficiários do que quer que tenha acontecido a muitos milhões, entre bandos de flamingos desalojados para sempre do delta do Tejo, sobreiros seculares cujo abate é autorizado a peso de Euro e dinheiros partidários que têm circulado por blocos centrais de interesses desde o 25 de Abril. Mas como se fala em milhões de Euros sonegados e é cada vez maior a horda ululante de desempregados, precisa-se de bodes expiatórios para dar a imagem virtual de que, em Portugal, com bens públicos não se brinca. No Freeport, Charles Smith cumpre com o perfil para ser o primeiro imolado. Ver Mr. Smith a entrar e a sair do Tribunal de Setúbal entre câmaras de TV sugere que a justiça funciona. Depois, como é estrangeiro e é britânico, e como desde o Ultimato à Maddie em Portugal não gostamos dos Ingleses, Charles Smith é o suspeito perfeito para ser o corruptor num processo em que não há, e provavelmente nunca vai haver, corrompidos. Se os houvesse também pouco interessava. Em Portugal a corrupção detectada e não provada venera-se porque é sinal de esperteza. A bem investigada cai fora de prazo e deita-se fora. A apanhada em flagrante custa cinco mil Euros. No Banco Português de Negócios o bode que expia é Oliveira e Costa. A prisão preventiva dá a ilusão de que a justiça funciona mas o ameaçador mutismo do testa de ferro da bizarra construção de contabilidade prevaricadora grita acusações ao mais alto nível imaginável. A sua serena declaração de auto-incriminação (que é tudo o que realmente se sabe sobre Oliveira e Costa) é a mais ameaçadora postura na história portuguesa do crime sem castigo. Enquanto Oliveira e Costa se mantiver calado está seguro na zona dos privilegiados da prisão dos ricos. Quando falar (e ele acabará por falar), provavelmente, cai o regime. É materialmente impossível ser ele o único responsável pela infinita complexidade das urdiduras financeiras nos Second Lives do BPN e da SLN. Logo, ao assumir toda a culpa, Oliveira e Costa mente e encobre. Pelos montantes envolvidos ele não pode ter sido o único beneficiário dos dinheiros que saltaram continentes, vindos sabe-se lá de onde para a maior operação de Dry Clean na história de Portugal, e foram parar…sabe-se lá onde. O certo é que se traduziram em compras de poder e de influência que conseguem transtornar o normal funcionamento das instituições. O problema não é da justiça. Este Carnaval tivemos dois exemplos da celeridade vertiginosa com que o Ministério Público e a Polícia conseguem actuar quando querem. Num par de horas confiscaram, censuraram, ameaçaram, intimaram e intimidaram por causa de imagens de mulheres nuas apensas a um objecto de propaganda governamental e a um livro. Já no Freeport e no BPN, entre investigações, rogatórias e reguladores apáticos, os anos foram passando no dengoso bailado de impunidades rumo ao limbo de todas as prescrições. Hoje ficamos com aquela terrível sensação tão bem descrita por Torga, de que, apesar de estarmos todos a ver tudo nas angústias paradas da vida que não temos, nada vai acontecer.
---
Ou melhor, não tenhamos medo, fiquemos zangados, agastados, irados. Muito. Salvemo-nos.

Yes we will?

pelo menos não custa muito pensar que sim


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domingo, março 01, 2009

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