Pedras Rolantes

"A vida é aquilo que acontece enquanto estás demasiado ocupado a fazer outros planos" John Lennon



"You can't always get what you want, but sometimes, yeah just sometimes, you can get what you need" The Rolling Stones



domingo, outubro 31, 2010

the astounding eyes

Anouar Brahem Trio / Stopover at Djibouti



Os assombrosos olhos de Rita estiveram cá, na Gulbenkian. Que bom que é apostar na música do mundo e ver que há público à 2ª feira. Eu não sabia o que era um Ud (pensava, deve ser estilo alaúde). Mas é muito maior, aquela guitarra de 12 cordas em forma de figo que faz música não só tipicamente tunisina (árabe? magrebina?), mas do fundo do coração. Os nomes das canções e dos discos que Anouar já editou mostram muito de poeta.
Ao contrário de outras pessoas que já tocaram na Gulbenkian, houve tempo dedicado mesmo para autógrafos; "un jolie ensemble" deixou-o feliz. Assim como os companheiros de quarteto, volte muitas vezes, volte sempre.

Shallow'een

Sem Cor / Dr1ve @ Youtube



Sim... Eu sei do que falo
Sim... Eu vivo ao lado
Nem tudo o que passa por mim
Tem cheiro de cor
Nem tudo o que passa por mim
Tem sempre sabor.
E é sem cor...
É sem cor que eu fingo que não existo
Sem cor, é sem cor que eu fingo que não sinto.
Eu sei que vidas que passam, que nos são contadas, numa roda que é sem cor
São vidas penadas assim, são cheias de cor..
São vidas que passam por mim, sem qualquer sabor...
E é sem cor... É sem cor que eu finjo que não existo
Sem cor.. É sem cor que eu finjo que não sinto...

darkness in presence of light

Wintersong / Sara Bareilles & Ingrid Michaelson @ you tube



This is my winter song to you.

The storm is coming soon,
it rolls in from the sea

My voice; a beacon in the night.
My words will be your light,
to carry you to me.

Is love alive?
Is love alive?
Is love

They say that things just cannot grow
beneath the winter snow,
or so I have been told.

They say we're buried far,
just like a distant star
I simply cannot hold.
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?

This is my winter song.
December never felt so wrong,
cause you're not where you belong;
inside my arms.

bum bum bum bum bum bum bum bum
bum bum bum bum bum bum
bum bum bum bum bum bum

I still believe in summer days.
The seasons always change
and life will find a way.
Ill be your harvester of light
and send it out tonight
so we can start again.
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?

This is my winter song.
December never felt so wrong,
cause you're not where you belong;
inside my arms.

This is my winter song to you.
The storm is coming soon
it rolls in from the sea.

My love a beacon in the night.
My words will be your light
to carry you to me.

Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?
Is love alive?


Wintersong / Ronan Keating @ Youtube


Duas versões da mesma canção, que me veio à mente porque gosto dela (em qualquer dos arranjos) e antes destes dias árticos em que a noite avança.
Curioso o facto de o frio ser branco, gelo, neve, que reflecte a claridade. Para mim o frio é sempre frio, os tons da paleta de cores são os mesmos, mas sem fogo, sente-se o frio como ausência.
Lisboa alagou. This is not a Xmas song.

O país e o mundo (versão beta)


Vem tudo sempre dar ao mesmo.

sábado, outubro 30, 2010

Ar do Rio

Morelenbaum Cello samba trio / Samba de uma nota só @ Youtube


(Festival CCB Fora de si, Concerto de Encerramento - Grande Auditório; 28 Agosto 2010)
Jacques Morelenbaum, violoncelo; Lula Galvão, violão; Rafael Barata, percussão; Daniel Jobim, voz e piano

Há coisas que nasceram assim mesmo, musicais e ritmadas, como o Brasil. Tónicas, em percussão, cordas ou sopro, em cantigas de desamor que acabam contentes. Esse vasto contigente património mundial que é a MPB supera os conceitos de latinidade e world music. Hoje há música de fusão, é um pouco Jazz, violoncelo a cantar samba de uma nota só. O "violão" ou guitarra dá-se a todos os tipos de desgarrada e a percussão nem precisava ser bateria (puxa vida, samba é ritmo, pô!).
Foi uma bela homenagem da família Jobim, a Jobim, Vinicius e todos eles. Os Morelenbaum também já são uma família de revisitações e reinterpretações. Que se ouvem sempre bem. Podia ser fácil cair na autofagia dos criadores, mas estes deixaram margem para o improviso e para a evolução.
Pena mesmo é que se oiçam só os grandes clássicos e não uma coisa completamente diferente, só para abanar ainda mais o capacete. Quem perdeu foi quem não esteve lá, muita gente, aliás, que a casa meia cheia se apresentava com os atrasos vergonhosos do costume (Lisboa em férias?).
Por estas pérolas, o CCB fora de si tem dado mostras de mais consistência que os moribundos dias da música (infelizmente). Não se explica a falta de afluência, porque poucas vezes se ouve tanta água de Março, Corcovado, Desafinado, água de beber, entre outras, com vontade de se soltar de preconceitos.
... E sambar /swingar / jazzar/ dançar um pouco. Brasil é feito de movimento ondulatório. Wave. Brasil que também já é feito de Nova Iorque, que já se amestiçou brasileira. 

segunda-feira, outubro 25, 2010

Saciedade de consumo

Por circunstâncias a que sou um bocado alheia, e também por muita ronha, as compras da semana foram-se arrastando até domingo. Seria altura de normalmente recorrer ao super de bairro e barafustar a falta de essenciais ao domingo.
Acontece que supers de bairro há dois, e o Continente (ex-Euromarché) de Telheiras está dentro da esfera de influência (podia também contar com 1 Feira Nova, e com o Continente do Colombo). Malgré moi, vivo e movimento-me em Lisboa. Entrei em Telheiras a meio da tarde e fui acometida por um ciclone.
O hiper não estava cheio, porque parecia ter sido saqueado. Estava cheio sim de pessoas, cada qual com seu carrão, com estacionamentos em quadragésima fila. Eu lembro-me de hipers cheios de gente há muito, muito tempo (talvez quando abrissem aos domingos, ou numa maratona de Natal).
Os dias tradicionais de compras, 6ªf, são sempre plácidos, assim como eram as manhãs de domingo com os portugueses em contemplação do lençol.
Comentava-se que não tinham sido tomadas providências e não estavam preparados para os sôbolos rios que vieram. Havia filas em todas as caixas abertas - e eram muitas. Os carrinhos do super iam  meio a 3/4 atestados. Este ano, o natal anda atrasado - no ano passado estavam prontas a funcionar as luzes da Junta no princípio de Outubro - este ano andam agora a instalar.
Parece que o Pai Natal está à espera do debate do orçamento para perceber se ficamos mais ou menos PIGS. E os tugas, antecipando a desgraça, livram-se das poupanças antes do fim do ano, quem sabe, na esperança que o fundo do túnel não tenha luz, portanto deixem de importar as aparências, a fénix e a fome. 

segunda-feira, outubro 11, 2010

quarta-feira, outubro 06, 2010

já a seguir

Uma história antiga contada de novo muito em breve... mesmo!

O sal

(uma outra perda de Verão)

O sol o sul o sal
As mãos de alguém ao sol
O sal do sul ao sol
O sol em mãos de sul
E mãos de sal ao sol
O sal do sul em mãos de sol
E mãos de sul ao sol
Um sol de sal ao sul
O sol ao sul
O sal ao sol
O sal o sol
E mãos de sul
sem sol nem sal
P'ra quando enfim amor
Um sul ao sol
Uma mão cheia de sal?
O sol o sal o sul
O sol o sal o sul...

Ruy Duarte de Carvalho, O Sul


As pequenas memórias



"Deixa-te levar pela criança que foste."

As Pequenas Memórias
José Saramago

Foi no dia 18 de Junho, o meu atraso é dedicado, mais que delicado. Entretanto a Fundação Saramago escolheu celebrar Saramago todos os dias 18. Por essa epifânia, pus essa questão à dita (no Facebook) - comemora-se a morte de quem queremos manter vivo? Responderam qualquer coisa inconsequente, o que interessava era comemorar bláblá. É muito portuguesinho, comemorar a efeméride e não a pessoa. É muito obrigadinho, palavra que Saramago deve ter utilizado pela 1ª vez quando lhe estenderam num tapete a Casa dos Bicos. Obrigadinho.
Nunca me hei-de lembrar de dia 18 (que aliás é dia em que eu nasço, e dia de São Paulo tb), porque tenho amnésia selectiva para dias de despedida. Sei que foi depois do Sto António, a meio dos Santos populares, e apareceram aqueles Obrigados pendurados entre as sardinhas e a Superbock.
Tenho pena, gostava da maioria dos livros que li dele. Ao contrário de muita gente, li mesmo os livros dele. Começando pelo Memorial. Para aí aos 13 anos; ao princípio não entrava, estranhava. Pousei-o e voltei semanas mais tarde. Foi o 1º de muitos romances. Não vou destilar elogios, já tive que salvar a honra do morto de alguns monárquicos alentejanos ressabiados por não perceberem a 1ª página do Memorial. E foi luta cerrada no facebook. As pessoas julgam que podem ser tiranetes da sua opinião. "era vermelho", logo "tirou-nos as terras", logo "aquela coisa do Diário de Notícias", logo "saramago é nome de erva ruim", logo "já viu algum Nobel que não fosse vermelho", (referi Churchill, não convenceu), logo "o PCP esteve metido com o Salazar para matar o Humberto Delgado" - esperem lá, o quê?????? Entrámos num ficheiro secreto, feito de cromos e colagens com cuspe. E Saramago, o que fazer com esse "traste" (apesar de estar morto, utilizo esta palavra, que no original foram várias e muito piores).
Como o défice é de Cultura (e de História), acabam por se perder na própria cauda. Saramago disse "sou um comunista hormonal". Ponto. Que diabo! Quero lá saber. Porque surge tão frequentemente o chavão "intelectual de esquerda"? Porque não há intelectuais ao meio e à direita? Jesus!...
É claro que Saramago não era pessoa fácil, veio de fora do establishment e tiveram que o engolir, mais ao Nobel; aprendeu por si próprio, cultivou hábitos de leitura, passou a vida a aprender. Quem dera a muita gente. Quem dera a muita gente ler, perceber e integrar a revista Ler de Julho/Agosto que lhe foi dedicada.
O resto, sinceramente, ruído de fundo que quem não faz nada gosta precisamente de amplificar, não me interessa. Curiosamente, o meu livro "especial" é o Ano da Morte de Ricardo Reis, agora partilhado por uma grande multidão de cérebros pensantes. Mas gostei muito também de Jangada de Pedra, do Memorial, da História do Cerco de Lisboa e do Evangelho (para além do livro de contos e de versos avulso). Não gostei do Levantado do Chão e o Todos os Nomes está parado a meio há anos.
A minha Avó era leitora compulsiva; gostava de Saramago e leu todos os que eu li mais o parado e o Ensaio sobre a Cegueira -foi o único que não gostou.
Por isso o Ensaio ficou à parte, à espera do filme que haveria de aparecer e convencer. Já depois de 18 de Junho, fiz esse esforço, pela minha avó. Foi um esforço. Tem muita raiva lá dentro.
Há pequenas pérolas, como A maior Flor do Mundo, o Conto da Ilha Desconhecida, A Viagem do Elefante e As Pequenas Memórias. Estes últimos livros foram "dados" à minha Avó e estão no quarto dela para quando ela quiser dar uma piscadela.
As Pequenas Memórias levam-nos às lezírias e ao Tejo que manda entre cá e lá, aos avós que, da terra lhe ensinaram tanto, da Azinhaga (aquela terra com nome de Aldeia...), dos anos em Lisboa quando pequeno - é daquelas coisas que a minha Avó adoraria ter lido e ficado a comentar como tinha sido também a sua infância em bairros agora finos de Lisboa, antes muito mais, digamos "humanizados".
Nessas pequenas coisas, como na feira do livro, a observar um rapaz reguila a fazer das suas, sendo cortês sempre, estava Saramago sonhador.
Outras assuntos foram sempre muito privados, muito seus, muito sussurrantes, a fera que se levanta quando o escritor levanta a pedra (e escreve um romance); a atitude de defesa perante aqueles que possivelmente hostilizaram a sua "subida" no mundo das letras aumentou o seu fel; a imagem de rapaz na catequese a fazer birra, que se encanta com uma Nossa Senhora num retábulo, Portugal fora; a luta contra os demónios da morte, mais do que com o ruído dos "deuses". Morreu com uma doença da minha bitola (mais um, infelizmente). Os espanhóis disseram apenas leucemia crónica; acrescento-lhe linfática ou linfocítica e confirmo a minha presunção. Há muito mais tempo do que toda a gente sabe ele está doente; digamos, 20 anos em média, e com sorte -os livros foram-se tornando mais acintosos acerca de tudo, do mundo que não quer mudar e da imortalidade que não está lá, antes escorre e lembra o seu contrário todos os dias.
Finalmente, as frases na contracapa. Chegaram a perguntar-lhe onde se podia encontrar o livro da citação, o que o fez decerto rir-se muito para si mesmo - "inventei mais um livro".
A sua maneira de escrever foi a sua dádiva à nossa literatura. Tenho ainda muitos livros seus para ler e guardar. Como as Pequenas Memórias e a minha Avó, sempre.
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