Pedras Rolantes

"A vida é aquilo que acontece enquanto estás demasiado ocupado a fazer outros planos" John Lennon



"You can't always get what you want, but sometimes, yeah just sometimes, you can get what you need" The Rolling Stones



segunda-feira, novembro 28, 2011

pobrezinhos...

(No dia em que os nossos ais passaram a património imaterial da humanidade, vale a pena relembrar um artigo  cada vez mais na crista da onda - não o  sendo, contudo, pelas melhores razões)


O Acordo Tortográfico
por Miguel Esteves Cardoso, 1986


Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Príncipe, de Angola, do Brasil e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronunciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristóvão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a lusofonia funciona com mais de cem milhões. Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos na África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhomguenses, umbandinos e macuas. Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e excitante língua, que poderá passar a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia a língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brutoguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto. As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito da cacografia. Dantes, cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.
As ortografias tupis e crioulas, macumhenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por letras tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «CUF-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a Dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia», para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer desacentuadamente «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» é mesmo assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos Portugueses, caso o Acordo seja aprovado: «A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileiria, com a ajuda entreistorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirreta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas.
«No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula.» A escrever «O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não e sobreumano»? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar?)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?
Os Portugueses, no fundo, assinaram um Pacto Ortográfico que soube a Pato. Ninguém imagina os Espanhóis, os Franceses ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima dos misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade própria. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça, como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem de estupidez que pretender que todos aqueles que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. É ridículo, é anticultural e é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada à atenção, dirá «Tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem os cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»
A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrespeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira deles é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os Brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos. E não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.
Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tigela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses, armados em donos de uma língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto ao Governo – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote de lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («Tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé») e de inadmissível sobranceria cultural («Tudo vale, mas nós é que temos de dar o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe».
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas realmente sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar a política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste mesmo momento, muitos Portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater esta inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização.

Nota: o texto em itálico, negrito e/ou sublinhado é da minha responsabilidade.
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Passaram-se - é incrível - 25 anos! O pior, ou seja, o Acordo(zinho), apesar de tanto português contra, vai em frente, as indústrias livreiras dos hipermercados rejubilam e o contra-senso vingou. Não na minha língua. Já leio jornais com atos àtonos (Expresso), revistas de Livros em que metade dos colaboradores escreve entre parêntesis sem ser ao abrigo do acordo (Ler), vejo nas televisões generalistas mais erros ainda do que era costume (hépátite é uma constante, por exemplo), leio livros impressionantes, saídos há pouquíssimo tempo (O Chalet da Memória, Tony Judt, Edições 70), amputados de consoantes mudas e de meses com corpo inteiro.
Sinto-me mais pobrezinha. Não é só da crise, é das letras.

segunda-feira, novembro 21, 2011

curtas & vorazes (1)

Porque é que será que vemos tantos bancários / banqueiros serem "admoestados" (cá em portugal land não acredito que passe disso), vá lá, um Madoff nos states preso, os casos dos funcionários que apostavam acima do risco em probabilidades impossíveis (ingleses, franceses, seráficos), genericamente retirando solubilidade aos bancos para altos benefícios pessoais (money, money, money)...e ninguém a controlar, e a bola de neve a rolar? Sim, tantos.
Porque é que será que não vemos um bancário / banqueiro (labutador, funcionário), que desvie o superavit de alguns sacos azuis para, digamos, ajudar clientes à rasca com a crise? Os gestores bancários não são tão nossos amigos? Eles, o Mourinho e o Ronaldo? Porque é que nem um arrisca pelos desfavorecidos (que são tantos) e tantos pelo desejo do guito próprio (só mais una milhões).
Isto não é retórica de esquerda nem de política. É falta de humanidade. Será que os srs auditores davam mais depressa pelo desvio do que pelos do BPN, madeira, PPPs? Será uma suprema falta de ideias (ou de cojones)?

Advertência

Não possuindo qualquer tipo de entendimento ou iluminação sobre o acordo ortográfico que por cima de nós vagueia há anos, ameaçando agora cada vez mais tornar-se prática, passo a considerar-me português-minoritária, uma vez que, para mim, se as consoantes existem para ser mudas, é por que lá devem estar. A despromoção dos meses e estações é ridícula.
Não há regra nem excepção, porque em muitos casos os brasileiros continuam a escrever português como nós escrevíamos dantes, e nós não.
Ele(c)tricidade é assim mesmo, dece(p)cionante. Que dizer dos a(c)tos desfalecidos dos apóstolos. O Português do Brasil será sempre uma língua tónica, e o nosso uma língua átona. E não é a desaprender de escrever assim que nos aproximamos da "oralidade". Aliás, que seria de uma língua se fosse apenas falada?
Vive la différence. Toujours.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Em homenagem ao status quo Português



(É só substituir "girl" e "love" por subsídio(s) e money, no original dos Walker Brothers)

Loneliness
Is a Cloak You Wear
A Deep Shade of Blue
Is Always There
The Sun Ain't Gonna Shine Anymore
The Moon Ain't Gonna Rise in the Sky
The Tears Are Always Cloud in Your Eyes
When Your Without Love - Baby
Emptiness
Is a Place Your In
With Nothing to Lose
But no More to Win
(Repeat Chorus, Except Exclude 'baby')
Lonely, Without You Baby
Girl I Need You
I Can't Go On
(Repeat Chorus, But Add An Extra
'the Sun Ain't Gonna Shine Anymore'
After 3rd Line)
The Sun Ain't Gonna Shine Anymore
(Repeat Till Fade)

sily stupid what


Entrevista de verão silly season like da revista única (Expresso)

(inquérito de verão inconveniente, segundo a nova grafia, criado por Luís Pedro Nunes)

1.      Já calculou a sua pegada ecológica ou está a borrifar-se para o assunto?

Sou poupada e ecofriendly, mas os documentários sobre o aquecimento/arrefecimento global, Al Gore e etc fazem-me sempre sentir culpada de alguma coisa.

2.      Se matasse alguém, como é que se livrava do cadáver?

Enterrava-o num composto orgânico biodegradável (ou servia-o ás postas ao jantar).

3.      Esticou-se muito para ter mais altura no registo civil?

Não, eles medem sempre as pessoas na posição fetal.

4.      Nos restaurantes pede um refrigerante light e depois uma mousse de chocolate para sobremesa?

Não gosto de refrigerantes; peço água ou sumo de laranja natural. Se o caso for para sobremesa, é para a desgraça mesmo, em forma de arroz doce, gelados, coisas boas (mousse não entra).

5.      Num filme de Woody Allen preferia ser o neurótico ou a mãe castradora?

Num bom filme de Woody Allen (não faço a coisa por menos), preferia obviamente A neurótica.

6.      Já se enganou e enviou um e-mail ou sms a dizer mal de uma pessoa para a própria pessoa?

Não utilizo mails ou sms para isso.

7.      Fiódor Dostoiévsky ou Fábio Coentrão?

O Fiódor não era do Benfica, pois não? E tinha neurónios em vez de prolongamentos louros. Hélas, nunca chegou a galáctico. E o Proust escrever armas de arremesso mais pesadas.

8.      Qual é o sítio mais esquisito onde já satisfez necessidades fisiológicas?

Há muita casa de banho pública que desafia a imaginação.

9.      Atende chamadas de números privados ou tem medo que seja o seu gestor do banco?

Não. A minha gestora sabe onde me encontrar e que eu não atendo números privados.

10.  Já “conheceu” alguém no facebook?

Não, mas já desconheci muita gente.

11.  Qual é a maior gaffe que cometeu?

Dizer a verdade, só a verdade e nada mais que a verdade.

12.  Qual é o pior filme da sua vida?

Os filmes beras, porcos e maus não fazem parte da minha vida, só os que adorei.

13.  Qual foi o seu dinheiro mais mal gasto?

Todo o que foi utilizado para pagar impostos ao estado, dívidas à Madeira e podia continuar…

14.  Já correu nua?

Correr, eu?

15.  Se não estiver ninguém a ver, tira macacos do nariz?

É mais do estilo mucopolissacáridos com a ajuda de várias bolsas de lenços de papel.

16.  Já deu um pequeno toque num carro e seguiu?

Dei & recebi.

17.  O que é pior numa ida à praia: pisar um ouriço ou encontrar o professor Marcelo?

Até agora, sempre tive uma co-existência pacífica com ouriços nas praias; já desliguei do Prof. Marcelo há uns zappings atrás. Portanto o pior numa ida à praia é pensar que se vai à praia, e encontrar um allgarve camónico (de camones, e não de Camões).

18.  Já alguma vez fez um pagamento com multibanco em que estava com medo de não dar autorizado?

Não.

19.  Qual é o seu palavrão preferido?

O meu léxico é muito diversificado; gosto do estilo IKEA, beståååå, boståååå, e depois, é claro, tudo o que tenha a ver com política.

20.  Quer aproveitar este inquérito para pedir desculpa a alguém?

Só se for a mim própria, por estar tão desneuronada que até respondo a isto.

sábado, outubro 01, 2011

luto pelos masterchefs (contribuintes)

O contribuinte irrita-se (naturalmente) quando vê a Rtp. Mas regra geral, o contribuinte não vê a Rtp, até porque as séries podres de boas, que dão na Rtp2 (juro!) são a horas abstonças, desencontradas, para falhados da vida, etc. Apeteceu-me. Aqui a contribuinte, por mais que endeuse o Jon Hamm e os seus e suas Mad Men (& women), não está á espera das 22.45 mais meia hora menos meia. Os outro canais foram desqualificados de apresentar séries porque as atiram para as 2h da manhã (lembro-me de ver o CSI quando fazia urgência internas - bem pela noite dentro). Quando se é espectador do AXN/FOX/etc em versão desesperada (as séries boas são cada vez menos), está-se à espera do prime time, isto é, 21.30 / 22.15. Como as coisas vão, posso tb contemplar o horário do Jornal da Noite.
Ora voltando à coisa pública, vai daí a alguns anos que acharam "curtido" continuar aquela cena das maravilhas, estilo com chamadas de valor acrescentado (ok, tb se vota pela net) e verbo de encher para muitos serões.
Depois das 7 Maravilhas de Portugal, 7 Maravilhas de Portugal no mundo, 7 Maravilhas Naturais de Portugal, chegaram as 7 Maravilhas (versão 10ª sequela idiota do Tubarão) da Gastronomia...
Haveria muito a dizer da febre culinária na civilização ocidental em tempos de crise, entre Hell's Kitchen, Masterchef's, e, porque não afirmá-lo, de Pesos pesados (marca registada). mas não me apetece de momento. As 7 gastro, edição especial em Santarém, foram, como espectáculo, inolvidáveis. A sério, há muito que não presenciava nada tão foleiraço (o Filipe la féria pareceria um génio de mise en scène). Também podemos evocar Catarina & Malato + Cataplana. Fica mal.
Homenagem à cozinha portuguesa era ter ganho o Alentejo. Não se come tão bem como no Alentejo. Ok, concedo que em Trás-os-montes tb têm umas especialidades. O Alentejo tinha 1 em 21 especialidades finalistas; o Alentejo ganhou 0. Porque isto tinha mais a ver com o "prato da casa", uma vez que os discursos de agradecimento foram de confrades e promotores turísticos (o que inclui presidentes de câmara, junta de freguesia, e, se calhasse, o Isaltino).
O queijo da serra (da Estrela) como entrada? perdão? Então o queijo não é...queijo? Não! É entrada, como as alheiras! Ugh. A descrição dos pratos como prazeres do palato/malato, seres sexy na voz de Catarina não despertou a fome. Vieram chefes & chacais entregar prémios. Nós (Lisboa e arredores) ganhámos a Sardinha e o Pastel de Nata. WTF!? É isto a nossa herança mediterrânica? Isto e a epopeia do Bacalhau?
Duas coisas resumem tudo: não houve Alentejo (e sim leitão picante da Bairrada) e o arroz doce nem foi nomeado. Pim! 


o ALL de nothing

Após a tirada assassina do bando Maddie MacCann, não há bife que não seja roasted, shaken & stirred na big All boo fair (city of rotundas and beaches em queda).
O Algarve, hoje, ou é golfe ou é pimba, e talvez as duas coisas ao mesmo tempo, com IVA a taxa reduzida. É terra de gente estranja, estranha, a saque & a monte. Tenho pena. Não o conheci assim. Já passou muito tempo, e muitos governos.

Um dia pior virá

(Agosto /Setembro 2011)

A verdade é como o LaPalisse e a lei como a de Murphy: não há nada a correr mal que não possa correr ainda um bocado pior. Embora todos nós saibamos que o coração da "raça" lusa já não aguenta uma prova de esforço, quanto mais um rating, uma Moody's, uma Angela ou uma Casa dos Segredos ( o que quer que isso seja).
Passou Agosto e o povo ruminou as férias mal digeridas com nortada dentro e muita vitor-garparzisse avulsa (novo acordo urográfico). Tá-se de férias. Tá-se.
Aos bravos do plutão (aquele que já não é planeta) que como eu, retiraram em Setembro, o que lhes resta esperar? Um local ermo sem internet nem rede telefónica nem televisão digital terrestre. Tende muito medo.

Quando voltarmos, a Grécia há-de parecer um lugar porreiro, pá.
Bora cortar os pulsos (aos ministros).

terça-feira, agosto 30, 2011

Sleep

o surreal existe. o mundo é a fonte de todos os medos e todas as preocupações. estar acordado, dormente ou a dormir, cantando sozinhos perante o Youtube ou num coro global de 2500 pessoas? o impossível possível, o improvável banal.
I close my eyes & go to sleep.



The evening hangs beneath the moon
A silver thread on darkened dune
With closing eyes and resting head
I know that sleep is coming soon

Upon my pillow, safe in bed,
A thousand pictures fill my head,
I cannot sleep, my minds aflight,
And yet my limbs seem made of lead

If there are noises in the night,
A frightening shadow, flickering light…
Then I surrender unto sleep,
Where clouds of dream give second sight.

What dreams may come, both dark and deep
Of flying wings and soaring leap
As I surrender unto sleep
As I surrender unto sleep.
Charles Anthony Silvestri, 1965-present

sábado, agosto 20, 2011

just

E por vezes as noites duram meses


David Mourão-Ferreira

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos"

(...)

terça-feira, agosto 16, 2011

Por ver morrer uma pomba

Anteontem saí para caminhar pela noitinha, enganando o calor com uma lua ainda quase cheia. A fauna natural do bairro passeava, humanos parados na esplanada, em frente à bola (uma vez mais) ou caminhando no habitual passeio higiénico dos caninos.
Os morcegos esvoaçavam em elipses à volta dos candeeiros sentido mosquitos, mas também à volta de vidrões e outros recipientes de lixo selectivo (somos um bairro que separa o que recicla, ainda que muitas vezes não pareça, dado os enchumaços que se plantam ao longo dos vários contentores). É a vida de recolectores na cidade - alimentar-se do que resta, do lixo, do que povoa o lixo.
Pelos vistos há agora vizinhos do quarteirão abaixo que dão guarida a gatos. Quando se dá comida e água num pratinho, e encosto debaixo de um motor, é certo que eles aparecem e agradecem.
A praga que tem vindo a afligir várias partes de Lisboa (e que antes era turística, porque confinada à baixa) de pombas pombas e mais pombas (gordas, imensas e gordas, a quem por reflexo condicionado quase toda a gente oferece comida) também nos atinge, especialmente havendo esplanadas que contribuem para a engorda. As ditas pombas agradecem tudo, beirais, sítios minúsculos para se encarrapitarem, tudo.
A vizinhança com o aeroporto (e falcões residentes) não as inibe. São muitas, e os tubos digestivos funcionam abundantemente. Adoram empoleirar-se em fila nos semáforos. Adoram passar a espécie infiltrante e preponderante, até no Jardim da Gulbenkian, competindo com os patos por cada bicada de pão.
Gosto de persegui-las, na esperança de um enfarte fatal do miocárdio devido à aterosclerose galopante sem dúvida associada a tanta obesidade.
Antes de ontem, dormia uma pomba, de cabeça escondida sobre a asa, no chão mesmo, perto da porta de entrada do meu prédio. A suprema lata, pensei eu - agora é para nós muito fácil pensar qualquer coisa que seja acerca dos outros (e pombas). Ela acordou mas não fugiu. mal andava, com uma asa desconjuntada. No dia seguinte encontrei-a morta e não consegui pensar em enxotar pombas. E é tudo.

segunda-feira, agosto 01, 2011

11.06.2001 - Indiana USA

(escrito após a execução de Timothy McVeigh e após ter visto a sua última entrevista ao "60 minutes"; há, para mim, actos de terrorismo, que transformam os dias comuns em puro medo, e crimes contra a humanidade, onde estes se enquadram; não me compete julgar quem comete assassínios em consciência, mas pelo menos posso opinar sobre as sociedades que os julgam e as penas que lhes são aplicadas. Que seria hoje de Hitler se tivesse Twitter e Facebook?)
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Terre Haute Skylight


(11.6.2001, Indiana,USA)
"Eu sou o dono do meu destino
Eu sou o comandante da minha Alma"
William Henley
1992- discurso de tomada de posse, Nelson Mandela
2001- últimas palavras de Timothy McVeigh

Diz-se que durante o seu transporte para a cela da morte, McVeigh pediu para parar e olhar a lua e as estrelas. Diz-se que o seu último desejo foi um jantar de gelado de chocolate com hortelã-pimenta.

Diz-se que o diabo branco americano morreu, que a pena se cumpriu. Se se fez justiça ou não, cabe a cada cabeça, muitas achando demasiado brando o método que o recambiou para as chamas ardentes, algumas rezando pela sua pobre alma ("temos que lhe perdoar, só assim ficaremos livres").

A caridade cristã norte-americana patrocinou um circuito fechado de TV para as vítimas e familiares de vítimas do atentado de Oklahoma que não tiveram a suprema felicidade de ser sorteados juntamente com alguns jornalistas para poderem assistir em directo, embora não in loco, aos 7 minutos e meio de uma morte há muito anunciada.

Diz-se que a vida imita a arte, a arte imita a vida; esta foi a Parte 1: "Dead Man Walking" de Tim Robbins, com Susan Sarandon e Sean Penn. Ainda se ouve Bruce Springsteen ao virar da esquina, quando os médicos e os guardas prisionais regressam a casa.
Descrição: McVeigh é amarrado a uma maca, seguem-se 3 injecções: 1ª, um sedativo, que prepara o organismo para não reagir, não haver aquela luta puramente animal, desenfreada e inconsciente, reflexo de sobrevivência que cai mal na CNN; 2ª, cloreto de pancurónio, derivado do curare, paralisa toda a musculatura esquelética, incluindo o diafragma daí resultando paragem respiratória (asfixia); 3ª, cloreto de potássio, provoca interferência na condução cardíaca, desregulando-a, levando à paragem.

Em 7 minutos e meio, paragem cardio-respiratória forçada. Não há reanimador na sala da morte, embora, em circunstâncias normais, qualquer doente nestas condições tivesse que ser imediatamente reanimado (no Juramento de Hipócrates, nunca diz para matar o próximo). Em circunstâncias normais, médicos especialistas teriam que esperar 48 horas para confirmar a morte cerebral, segundo apertados critérios.

"The Green Mile", baseado numa novela de Stephen King, leva-nos aos anos 30, tempo da "old sparky" (literalmente velha faísca), cadeira eléctrica cuja voltagem fazia apagar as luzes da vizinhança quando em utilização.

Timothy McVeigh desistiu por moto próprio da panoplia de recursos a tribunais, pedindo clemência. Decidiu não passar o resto da vida a esperar; assim, soube o tempo que lhe faltava viver.

Até o pedido do Papa caíu em saco roto aos pés do júnior e oligofrénico Bush. A Democracia baluarte dos valores do mundo moderno soçobrou à justiça olho por olho, dente por dente. Mostra bem a desagregação de um país onde os alunos do secundário praticam tiro ao alvo com os colegas e professores, tentando depois um harakiri estilo Pokemon. O país onde o anquilosado Charlton Heston clama por armas para todos. O país onde "pessoas normais", como o nosso vizinho da frente, perdem a cabeça e se tornam serial killers no McDonalds da esquina (será a BSE?).

O problema de McVeigh não era ter tendências de extrema direita, mas ser inteligente, ter formação militar (sendo até condecorado), e, sobretudo, ser um verdadeiro WASP. Nenhum americano lhe perdoa o facto de, com premeditação, ter agido como terrorista em próprio solo americano, destruindo um edifício federal como um castelo de cartas.

Se não fosse americano, era devolvido à precedência, e faziam-se umas manifs de vez em quando em frente à Casa Branca. Sendo americano, abriu uma ferida que não estanca no orgulho americano, no patriotismo sem limites e na paranóica caça às bruxas que inconscientemente defende os cidadãos americanos dos seus colonizadores europeus.

No filme "XFiles-Fight the Future", acharam a ideia de McVeigh tão boa que a recriaram em Dallas. Teoria da conspiração? O FBI nem sempre foi conhecido pelas suas virtudes, antes pelo seu poder velado.

Servindo uma vez mais de advogada do diabo (nunca pretendo pôr em causa a culpabilidade de McVeigh), o nosso terrorista é o típico introvertido e pacato cidadão com uma educação militar de códigos morais rígidos (quem mata quem em "American Beauty"?), que eventualmente chega a um ponto de colisão com o sistema, de não retorno ("Um dia de raiva", excelente desempenho de Michael Douglas), em que todos os mecanismos se dirigem para um objectivo concreto e a própria ideia de vida (própria e dos outros) se relativiza e secundariza até deixar de existir como tal. Segue apenas um comando, tal como a massificação da sociedade o moldou.

As reacções emocionais assoberbadas pelo aparentemente frio e contido nemésis americano na sua entrevista ao "60 minutes" não permitem julgamentos livres de preconceitos. Pessoalmente, não descobri uma mente intuitivamente criminosa, um pavão preconceituado neo-nazi como o pintaram. Perpetrou um acto terrorista contra a Mãe de todas as instituições, o estado americano, tendo morrido muitas pessoas inocentes. Não se esquivou à responsabilidade. Estava preparado para o crime e o castigo, como um soldado na frente de uma batalha.
E assim perante o Deus que é citado nas notas de dólar, e George W Bush, o tal senhor que parece que é presidente dos EUA mas não tem bem a certeza, Timothy McVeigh olhou para a câmara de televisão estrategicamente colocada no tecto, olhos fixos do efeito do sedativo…

…Aquele que já morreu vos saúda.

Na Noruega não se passa nada

A Noruega é como o Canadá. Nunca se passa nada que não seja relacionado com peixe ou genocídios em massa. O bacalhau, as palmetas, bomba e tiro a noruegueses, matança de focas bebés. Se acrescentarmos a Dinamarca, eis o príncipe Hamlet, que também não tem antecedentes muito favoráveis.
É um país do qual não se ouve falar. Até da Islândia se fala. Da falência e dos vulcões que ameaçam o espaço aéreo.
Dia 22 a Noruega entrou para a história dos noticiários sórdidos. Uma bomba "artesanal" num edifício público, um homem vestido de polícia a matar jovens trabalhistas numa ilha.
O dito Anders foi comparado a Timothy McVeigh, o  americano que pôs uma bomba num edifício federal em Oklahoma em 1995 (o material da bomba "caseira" é semelhante, porque é fácil de obter). Timothy foi condenado à morte e executado em 2001, por actos terroristas em solo americano. Bin Laden (presumivelmente), demorou mais tempo (mais sem tribunal nem júri).
Aí não concordo. O nórdico loiro que se passeava com as suas ideias de supremacia da raça "europeia", não comunista, não muçulmana, não "matriarcal (sic), não outra que mui cristã, imbuído do seu grande sentido de missão, por várias redes sociais, qual templário alado, vaticinou uma chacina sem quartel a acabar em 2089, com direito a vídeo no Youtube.
"Celebrate us martyrs of the conservative revolution, for we soon dine in the kingdom of heaven".
Obviamente, há espírito de missão. Haverá células adormecidas há espera do toque do mestre. Parece-me tudo muito mais maquiavélico. Timothy manifestou-se contra o governo federal - matando gente. Anders proclama o mundo novo - matando gente à queima roupa e manipulando os media mesmo na reclusão da prisão. Mudam-se os tempos.
O que é certo é que não me importava de ver a cabeça de Anders empalada, enquanto que nunca fui a favor da pena de morte para Timothy. Problema de proximidade? Des-sensibilização e intolerância televisivas?
Não sei explicar. É como o mundo, anda complicado.

segunda-feira, julho 25, 2011

segunda-feira, julho 18, 2011

Somos iguais?

Não só somos uma espécie devastadora de espécies (para além da própria), conjunto de raças destruidoras das diferentes, homens e mulheres que ainda não se sabem entender sem ser tantas vezes pela violência e pelo medo.
Parece que falta aprendermos tanto, em tantas matérias...
Neste vídeo, Daniel Craig dá o corpo ao manifesto (à Daniella), enquanto Judy Dench (a chefe M do ex-misógino Bond) acrescenta uma certa ironia aos comentários.
Uma questão de direitos & deveres, tão perto e no entanto tão longe...
(não me esqueci das burqas, mas esse é outro atentado à humanidade)

terça-feira, julho 05, 2011

Lado lunar

(homenagem ao eclipse que não vi)

A vida num dia

Life in a Day
Kevin MacDonald(realizador), Ridley Scott (Produtor), YouTube (excertos)


O dia foi 24 de Julho de 2010. À volta deste mundo que é uma aldeia reunida de facebooks & youtubes, uma imensidão de pessoas decidiu filmar o seu dia para a posterioridade. Kevin MacDonald recolheu as estórias de um dia na Terra em 80.000 vídeos de 93 países, procedeu à sua edição e montagem, e eis em 90 minutos a volta a 24 horas num planeta perto de si. Chamam-lhe "A vida num Dia", estreia algures a partir de 24 de Julho de 2011.
Falam de caleidoscópio. Prepare to be amazed? We'll see.



Ficou-me esta frase "o que me mete mais medo que tudo é a política".

Eu (sou eu)?

Procuro e belisco-me. (eu sou eu?) Falta tudo o que conheço. Não existe reconhecimento, re-encontro. Não advém sabedoria dos erros passados - e o futuro? Mas o tempo passa e as coisas imóveis. As vidas, as palavras, as pessoas paradas. Sem pontes, só ilhas. Sem sonho nem vôo.
Procuro a diferença e não a encontro. Não encontro solução, o problema provisório é permanente. Eu possuo demasiada inconstância para tolerar o desconhecido. Incomoda-me. Nestes últimos anos desconheci imenso e não gosto disso. Não gosto de perder e nunca ganho. É fácil queixar-me de dados viciados, mas eu não tenho dados nem gosto de jogos de azar. Jogando no certo e no incerto, acertando ou não, a sensação é a mesma, o vazio por dentro e em todo o lado.
Não me tem apetecido escrever. Não me tem apetecido ligar o computador. Não me tem apetecido. Há sempre mais uma camada a desfazer-se. Até quando?

Live Curious ? (1'02'')



Se existes, respiras ~ se respiras, falas ~ se falas, perguntas ~ se perguntas, pensas ~ se pensas, procuras ~ se procuras, experimentas ~ se experimentas, aprendes ~ se aprendes, cresces ~ se cresces, desejas ~ se desejas, alcanças ~ se alcanças, duvidas ~ se duvidas, interrogas ~ se interrogas, compreendes ~ se compreendes, sabes ~ se sabes, queres saber mais ~ e se queres saber mais, estás vivo.

É incrível a filosofia que pode estar contida num minuto e dois segundos de publicidade. E é incrível que ao fim do dia o zapping poise no National Geographic ou no Nat Geo Wild e já não sinta o fascínio pelos documentários como os da BBC Vida Selvagem, porque a bitola caiu ao nível do seriado e o documental já pouca diferença faz das vinhetinhas do Walt Disney sobre vida selvagem.
Live Curious é preciso, está em risco de extinção na nossa espécie.

quarta-feira, junho 01, 2011

massa crítica

É preciso um pouco de entropia/energia, para a máquina continuar a trabalhar.



Saber o que fazer,

Com isto a acontecer,

Num caso como o meu.

Ter o meu amor,

Para dar e pra vender,

Mas sei que vou ficar,

Por ter o que eu não tenho,

Eu sei que vou ficar.

É de pedir aos céus,

A mim, a ti e a Deus,

Que eu quero ser feliz,

É de pedir aos céus.

Porque este amor é meu,

E cedo, vou saber

Que triste é viver,

Que sina, ai, que amor,

Já nem vou mais chorar,

Gritar, ligar, voltar,

A máquina parou,

Deixou de tocar.

Sentir e não mentir,

Amar e querer ficar,

Que pena é ver-te assim,

Já sem saberes de ti.

Rasguei o teu perdão,

Quis ser o que já fui,

Eu não vou mais fugir,

A viagem começou,

Porque este amor é meu

E cedo vou saber,

Que triste é viver,

Que sina, ai, que amor.

Já nem vou mais chorar,

Gritar, ligar, voltar,

A máquina parou.

Deixou de tocar,

É de pedir aos céus,

A mim, a ti e a Deus,

Que eu quero é ser feliz,

É de pedir aos céus.

Porque este amor é teu,

E eu já só vou amar,

Que bom não acabou,

A máquina acordou.
(até a máquina, em último recurso,
precisa da Santíssima Trindade)

terça-feira, maio 31, 2011

Come rain or shine




Pelos púdicos

Estamos no quarto escuro, de castigo com orelhas de burro, no interminável fundo do túnel, e no entanto a vida autista continua. Os pelos púdicos ou públicos. A vergonha, a desgraça e as causas pelas quais somos superiores aos finlandeses...narradas por um inglês que diz "paaásteule di natta" custard sauce e, obviamente, "Mawreenho" (the best damn portuguese in the world).
Estamos em pré campanha, em campanha e em triatlo.
O três está na moda. Tal como Portas (Paulo) prefiro triunvirato a troika. Troika faz lembrar perestroika, coisa útil e moderna. Triunvirato aquela forma romana de governo de 3 cabeças, que acaba por ter mais parecenças com uma gárgula. FMI tem 3, letras. Mas não é isso que está em causa, o que é o FMI? Não é ele que empresta o polme das massas, é a União e a Angela. Não são os "moderados" que escolhem o juro, são as almas europeias apoquentadas com os especuladores.
Essas mesmas solidárias almas que não se importarão de jogar os pobres (de facto, ou de espírito) à sua sorte, mal vejam a estabilidade da sua Europa/Marco afectada. Não estamos nos Estados Unidos da América.
Mas por falar de fenómenos do entrocamento, basta ter um pé em Nova Iorque para se cair em orgias, sobretudo se se for economista e cabeça de proa bancária. Vai tudo visitar o quase modelo assassino putativo com requintes de malvadez de facto das revistas tugas cor de rosa. O mundo é uma aldeia.
E uma aldeia faz o nosso mundo. 3. Fátima, futebol e fado, triatlo. O mesmo fenómeno (!) do entroncamento provoca halos solares em presença do espírito de João Paulo II (que enviou altos cirros -nuvens- para efeito pirotécnico). Futebol, somos os maiores, taças, taças e mais FCP. Pelos na venta, pouco púdicos.
Fado, a campanha do nada a caminho do zero absoluto. O soutor por extenso Fernando Nobre e as casacas da assembleia, o "quando eu for 1º ministro", as fracas multidões por encomenda, o público pateta Catroga sem telemóvel, a múmia televisiva Teixeira dos Santos, o sim o não mas talvez é possível, os tiros nos pés e os sapatos de cimento. Como é possível tal falta de senso, sentido de responsabilidade, de estado, estando nós por um fio?
Ninguém (quase) promete nada, porque todos sabem que não vão cumprir. Os homens que não são da luta, vergonha, gel público, dinheiros ganhos com xaropada. Fala-se de demagogia. O quase engenheiro ainda fala, do mesmo, em português técnico.
Nós que vemos a barca voltar-se e as grilhetas irem ao fundo, já devíamos saber que para este país não há remédio. Até Salazar beneficiou da "conjuntura" - afinal, ele não passou "pela crise mais grave desde há oitenta eanos".
Vamos votar? Em que ideias, em que motor, se os neurónios pararam? Numa altura onde parece tão imperativo que os cidadãos tomem voz activa, participem, agarrem no futuro com as mãos, que escolha temos? Os espanhóis demonstram-nos que não é só melhor não se abster, como também é melhor votar no mal menor que em branco.
Por tantas causas andei a ler o Ensaio sobre a Lucidez (é pena, mas o voto em branco é neste romance um McGuffin, já que se trata no fundo de uma crítica mais profunda ao mundo, à sociedade e a realpolitik em continuação ao Ensaio sobre a Cegueira) de Saramago. Não me satisfez o sentido do voto.
Acabei agora de ler "Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos", de Tony Judt, que vai contando a triste história do Estado-providência desde o fim da 2ª guerra mundial até às crises actuais. É preciso voltar a ter ética, humanidade, valores sociais, aprender com o passado e planear o futuro, sob pena de construirmos uma aldeia global da qual todos fomos excluidos. Não podemos pensar no lucro com a ganância actual. A receita do triunvirato e as privatizações não estão muito consentâneas com "o remédio mais equilibrado". Também não sei se o nosso governo estará alguma vez preparado para ser o mais equilibrado. Ouvi apenas uma pessoa pronunciar com esse sentido a palavra "solidariedade", e é realmente o que precisamos. Não apenas dos bancos alimentares e da caridade cristã (ou de outra religião).
Trocar a técnica pela ética, que conceito antiquado. Mandem-se às urtigas os pelos. Todos.

domingo, maio 22, 2011

Caminhos de Santiago



The Way/ Emilio Estevez 2010

Mais outro que, esperemos, haverá de estrear numa sala perto de nós... Não sabia que o pai de Martin Sheen (Estevez) era galego e que o seu grande sonho era ter feito o caminho dos peregrinos para Santiago de Compostela.
O neto (Emilio), homenageia a família com um filme onde um pai oftalmologista californiano tem que ir buscar os restos mortais do filho aos Pirenéus franceses (globetrotter vs late yuppie, em flashback), e decide seguir o caminho.
A Fé moderna tem destas coisas, em que Fátima e o beato Karol fazem o sol entroviscado mandar sinais de cores. E atenção que eu tenho Fé, e gosto muito de João Paulo II ( o resto é mais complicado). Como é que não hei-de ser céptica em relação à definição de "milagre" quando esta se limita a cura inexplicável pela Medicina. Há tantas coisas que a Medicina só intui, com camadas de bom senso por cima, que parece não ser o tom da época... Não seria milagre cair dinheiro do céu, salvar-se toda a gente de um acidente grave, conseguir-se paz e sem tiros ou bombas, em vez de tempos de medo. Se calhar sou eu que sou esquisita, mas ser santo já não é o que era.

Duas observações: o pai leva o filho (as cinzas) com ele até Santiago, e vai deixando pedaços pelo caminhos. E a música da 2ª metade do trailer, Lost, dos Colplay. Fica no sítio certo.

Piotr & a naftalina





Já aqui tenho escrito elogios rasgados à Fundação Calouste Gulbenkian, pelos programas e ousadia em seguir pelo perfil da música do mundo com casa cheia.
Hoje é a altura de cobrar o dízimo pelos programas pré-temporada. Nada disto afecta a perfomance de Piotr Anderzewicz (espero não estar a dar grande calinada no nome do artista), mas não havia necessidade.
A casa estava cheia de clareiras, como se a crise tivesse desabado no dia anterior. Ora o concerto estava esgotado há tempos, portanto a desistência por não encontrar um trapinho dos anos 80 teve custos.
Digo isto porque, ao contrário de todos os concertos que já lá assisti, com excepção do de Nikolai Lugasnky, num Janeiro que tirou as martas ou seus afilhados naturais ou sintéticos do armário, e trouxe toda a gente podre de chique a valer (coisa com que não me incomodei, estava nas filas da frente, embora o subreptício cheiro da naftalina andasse pelo ar), que costumam trazer espectadores à civil e de todas as faixas etárias, este caiu da tripeça.
A população naftalínica com uma necessidade extrema de se arranjar e ficar a conversar com os igualmente geriártricos amigos e companheiros de série de concertos (porque é um must) quase fazia o pleno. Para completar, vi um ex-ministro (Mário Lino, Jamé)e um ministro demissionário (Mariano Gago).
Perante isto, tive pena que pessoas que provavelmente iriam apreciar mais um concerto de um pianista pouco convencional não terem direito a bilhete (1º compram os "habitués" da casa, tirando os bilhetes oferecidos), enquanto a maioria, que foi fugindo devagarinho dos encores, só faz figura de corpo, tosse e perfume fora de prazo presente, sem mais revezes do que picar o ponto.
Acabei com os espectadores, vamos ao pianista. Fiquei a saber que, se houvesse maneira de tocar piano deitado, Piotr agradeceria, embora à primeira vista não pareça jovem de se sentar á beira de um chaparro. Mas sentou-se numa cadeira (com encosto), e não no tradicional, frugal e quebra-costas banco. Bom para as costas dele. De Bach, Schumann, Chopin, nada a acrescentar. Obviamente trata-se de um intérprete que toca com excelência aquilo que gosta de tocar, e como já tem gabarito, pode mandar aquilo que não gosta para as urtigas com orgulho. Adora Lisboa, onde tem casa, e é um excelente mestre de cerimónias. Ainda tocou várias valsas de Schumann para (nós) os indefectíveis dos encores (e podia continuar).
Espero poder continuar a ouvi-lo e vê-lo em melhores condições.

segunda-feira, maio 02, 2011

um domingo qualquer

Este ano, empurrados pela Páscoa, os dias aconteceram mais cedo. Dizem que a taxa de ocupação dos concertos foi de 80%, o que não é mau; agora imaginem o Grande Auditório a 80%...
Só fui no domingo, porque ando mais entusiasmada com outras programações já citadas, e para além disso, o concerto que mais gostava (Laginha & Sassetti) estava esgotado desde o início nas bilheteiras. É o que faz haver patrocinadores. Foram os amigos da RTP ou coisa a encher a sala (uma sala pequena, nem um dos auditórios).
Como os reis da Folle Journée têm mais que fazer que vir aos pasteis, fui pesquisar quem é que valia a pena, baseada no parco reportório incluso (só saber o que vai ser tocado de véspera não me estimula). Confesso que não dei pela presença de um jovem virtuoso (polaco?) de 16 anos -haverá tempo-, mas reparei num pianista chamado Tiempo que antes de falar já devia saber os estudos de Chopin de cor. E por ele, apenas (irmã incluida), valeu a pena.




Não é qualquer um que toca um estudo com cada mão e faz música em vez de cacofonia. Os manos trouxeram na valise cds que a FNAC não vendeu (podem ver-se extractos no vídeo superior), e quem lucrou fomos nós, os poucos espectadores sortudos que ouviram (e ficaram até ao fim).
De resto, a população cada vez mais idosa, as crianças a fingir que passam o tempo a suspirar, porque não querem estar lá, as t-shirts e os souvenirs que não vendem desde há não sei quantas Festas da Música, os pianos aquários em cacofonia infantil, ou armadilhados com iPad, que realmente nada têm a ver com música amadora, uma sonsa representação da FNAC, que mesmo assim tinha alguns dvds a piscar o olho. Mas pouco, muito pouco, a soma e as partes. Pouca gente. Pouco passeio. Pouca música combinada.
Era suposto ser sobre a primeira parta do século XX, até ao fim da 2ª guerra. O programa, com pano para mangas, foi limitadíssimo.
Para o ano parece que será a Voz Humana. Valha-nos Deus, cada vez que me lembro das obras corais que ouvi, fico com cãibras nos ouvidos. Assassinaram à minha frente o Requiem de Mozart e a 9ª Sinfonia de Beethoven. Não há escola de canto cá? Só sei o que ouvi, e não alvitro bons resultados.

(contra)sensos


Mais uma vez a maravilhosa e oleadíssima máquina "simplex" (marca registada) do estado / administração pública mostra como está firme e hirto (e virtualmente inexpugnável) o motor do nosso desgoverno. Depois da pateada geral dos eleitores sem número mas com cartão de cidadão (o cartão mais vazio da história do chip apenas por 12€, salvo se levar terminal com pot-pourri para casa), que pôs em dúvida a seriedade (se é que ainda existia alguma) do sistema eleitoral, veio o censo, e-censo ou coisa do género.
No dia 31 de Março, o site do INE, inevitavelmente, crashou (grande palavra da nova ortografia). Alguns dias mais tarde já se podia responder às irritantes perguntas sobre água canalizada, literacia (um analfabeto tem internet?) e recibos verdes entre outras trivialidades. Ok.
Acontece que a responsável pelo recenseamento no Lumiar fez tudo torto. Apareceram avisos nos correios, e dentro de algumas caixas, novos códigos respeitantes às habitações, que invalidariam os anteriores... Mas não em todas as caixas.
Quando inseri os dados no INE, houve logo problema com o código da habitação (falta de números e uma letra a mais), que consegui contornar com um pouco de imaginação e fazer bater tudo certo. Com o novo código, "bisei" uma habitação, mas outra ficou com o código antigo, vulgo errado. (Nota rápida - eu sou vizinha da minha família, num prédio grande).
Para além do mais, certas perguntas, sobre se vive ou não 365 dias na casa, sendo ou não proprietário (hipotecado ou não a um banco até à raiz dos cabelos), vão trazer problemas porque tenho a certeza que a contagem de cabeças vai dar para o torto.
Mas criar problemas porquê? O governo está em gestão, os srs. de fato preto (cobradores do fraque) andam por aí, há feriados e pontes saltitando, mas no dia do trabalhador, infelizmente também domingo, trabalha-se coercivamente. Isto vai bem, com Magalhães a pedais havemos de lá chegar. Não sei bem aonde, mas havemos.

quinta-feira, abril 21, 2011

it's complicated (1)



Não basta as águas mil terem fugido às suas responsabilidades, deixando os contribuintes na praia todo o santo mês e retirando-os na Páscoa, com granizado, está tudo bestificado, ou qualquer coisa do género. Cada dia que pássa, só sai asneira. Que país este, que europa (pequenina) esta, que mundo este! Era de esperar que tivéssemos aprendido com a história /experiência. Afinal aprendemos que temos memória selectiva e moral duvidosa. Estou de trombas, ainda que não se note. As trombas ajudam a desfiltrar telejornais (passam em continuo entre os dois ouvidos), mas não ajudam a decidir, a criar.
Esperam-se dias menos facebookianos, plise.

quarta-feira, abril 20, 2011

Outside the box



The Tree of Life /Terrence Malick (data de estreia?)

Um pequeno excerto de filme onde se vê rodar a vida e o universo como uma caixa de surpresas ao som do Moldava, entre os anos 50 do século 20 (tão certos, tão seguros) e os novos "mauvaise époque" do século 21. Conhecendo The Thin Red Line, The New World, The Days of Heaven como marcas de Malick, será de esperar obra grande (e incompreendida). Há um ano por estrear. Que venha depressa. Estamos precisados.

quarta-feira, abril 13, 2011

Laissez moi en paix





É de louvar o programa musical da fundação Gulbenkian. Enquanto todos os auditórios com grande potencial de exploração permanente (p.ex. Culturgest, CCB), vão naufragando lenta ou rapidamente, sendo mais as excepções que os momentos honrosos (o que é pena), a Gulbenkian mantém o padrão de qualidade e expande-se. Adquiriu o gosto pela música do mundo, que passou a encher o grande auditório. Se a isso somarmos o gostoso do espaço e jardim envolventes, apontamos ao pleno.
Conhecia Ballaké do Diário Mali (com Ludovico Einaudi) e a dupla com Vincent do You tube e do álbum Chamber Music, já no iTunes. Ao vivo, "en vivant", é outra coisa. Diz a lenda que são cúmplices sem trocar palavra.
Que a kora é um instrumento que toca a música de que se fazem os sonhos, já eu sabia. Que pode também ser som da "nouvelle musique", como chama Vincent à batida jazzística/world do seu violoncelo, vim a descobrir.
Por outro lado, Vincent agarra-se, literalmente abraçando o seu cello, tocando da maneira mais impertinente -e inovadora- possível: fazer cordas parecerem flauta é obra.
O duo foi, e é, fenomenal, no transpor entre a tradição e a modernidade. Vincent tentou falar português do Brasil com muitas variantes ("música dji cartô"),mas a sua emoção não se perdeu na tradução. Podiam ter ficado por ali horas e horas a falar e a dar autógrafos - se calhar até ficaram. O dia 10 valeu pelo concerto e pelas coisas que verdadeiramente animam a alma.


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