Pedras Rolantes

"A vida é aquilo que acontece enquanto estás demasiado ocupado a fazer outros planos" John Lennon



"You can't always get what you want, but sometimes, yeah just sometimes, you can get what you need" The Rolling Stones



quinta-feira, julho 04, 2013

(n)o Dia Seguinte (24/11/2012)

Penso que estou a retrair-me, a retirar-me. Estar acordada é o contrário de estar a dormir, logo estar a dormir é melhor. Como a vida, para além de moderadamente f*****da também é politicamente (e na generalidade) incorrecta, a minha raiva incorrecta não poderia ficar-se por ali.
O tempo vai passando, a dormir ou acordada, sabendo mais ou menos o que se pássa com os casos de internamento naquela estrutura já tão cinzenta que é o hospital. Antigamente, não se devia ir ao hospital por dá cá aquela palha, ainda se acabava internado e com complicações graves. Hoje pode-se ter alta ainda pior, ou ir-se desfalecendo na inércia das urgências pagas.
A minha vontade de dizer à doente directamente o que pensava teve tempo para agir um dia. O único acesso parou. Está agora internada com uma espécie de "solução final" - o fim da linha - um catéter colocado directamente numa veia central, que para além de ser último recurso quase inviabiliza hipóteses futuras. É como se a luz ao fundo do túnel tivesse sido apagada. A da vida de uma pessoa. Segundo sei, ela não está a reagir bem; simplesmente não está a regir.
De todas as invenções e maravilhas da ciência e da técnica, ainda ninguém descobriu o que se faz quando tudo é irrealizável. Na minha especialidade, chama-se "acabar com o sofrimento" - há pessoas que afogam os doentes em quimioterapia até ao fim, penso que o senso comum é se não matamos a doença, deixemos a pessoa viver o melhor que possa e quanto possa.
Ter a vida dependente de um tubo é para mim um bocado diferente, é absurdo mas é verdade. Complications. Quando (não é se) o catéter trombosar ou causar ele próprio uma trombose, não há mais rim por máquina, é imersão mais ou menos rápida no mundo da urémia. No outro mundo.
É irónico,pois é, que o destino tenha vindo oferecer à doente aquilo que de outra maneira ela pareceu ir à procura. Não consigo raciocinar sobre isso. Fiquei fora de mim com a "tentativa", mas perante este facto não tenho palavras. O meu egoismo retirou-se. O meu coração ficou encolhido e pensei "mas então, não há mais nada?".
Já me perguntaram pela face da morte. É verdade que já a vi rondar, algumas vezes com alívio, permito-me pensar, para doentes moribundos. É a sombra pelo canto do olho. É a passagem para o outro lado. Respondi a essa pergunta que pela morta há que ter respeito, ela não vem maltratar quem cá está, pura e simplesmente vem, na altura certa.
Não sei qual será a altura certa para esta doente, esperava que fosse a muitos anos daqui, mas agora, nestas circunstâncias, a vida a prazo, com tiques de austeridade ainda é mais uma surpresa para a qual não estava preparada. Mais uma vez, se ela voltar à clínica, não sei como se lidar com a situação -improvisando, como sempre.
Cada dia que acordo, sinto que nada é suficiente


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